Governo disponibiliza R$ 630 mil para incentivar projetos em terras indígenas



O governo do Acre divulgou no dia 11 deste mês um novo edital do Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais (Sisa). Nesta etapa, ele vai disponibilizar R$ 630 mil para financiar as atividades desenvolvidas na gestão das terras indígenas, reduzir o desmatamento e conservar os ativos florestais.

Cada projeto selecionado pode receber até R$ 90 mil. Os recursos são provenientes da parceria entre o governo do Estado e o Banco Alemão de Desenvolvimento KfW, por meio do Programa Global REM REDD Early Movers. Projetos contemplados na primeira etapa do edital não serão elegíveis na fase II

Os projetos elegíveis deverão contemplar atividades ambientais, socioeconômicas e culturais que reforcem iniciativas de gestão e proteção territorial, contribuam com a conservação e uso sustentável da floresta, apoiem a segurança alimentar, valorizem conhecimentos tradicionais e manifestações culturais, empoderem as mulheres indígenas e fortaleçam as associações e as comunidades.

Os contemplados receberão apoio para aquisição de equipamentos, construção de pequenas estruturas e implantação de unidades de produção, aquisição de insumos e de bens de consumo administrativo.

De acordo com as atividades, o pagamento de pessoas físicas para o cumprimento de tarefas previstas, treinamentos e reuniões.

Os interessados em acessar os recursos devem preencher o formulário, disponibilizado no anexo I do edital, e encaminhá-lo junto com a proposta de projeto para o e-mail povosindigenas@ac.gov.br.

A documentação também deve ser remetida via correio à Assessoria de Assuntos Indígenas, Rua Rui Barbosa, n° 17, Bairro Centro, CEP: 69900-084, Casa dos Povos da Floresta, até o próximo dia 10 de agosto.

O edital completo pode ser acessado na edição do dia 11 de Julho do Diário Oficial do Acre.

Parecer assinado por Temer pode acirrar violência contra indígenas



O presidente assinou um parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) que, na prática, paralisa processos de demarcação de terras indígenas no país


A Advocacia-Geral da União (AGU) informou na noite de quarta-feira (19) que o presidente Michel Temer assinou um parecer mudando a forma como a administração pública lida com a questão das demarcações de terras indígenas em todo o país. A medida tem o potencial de paralisar processos de demarcação e acirrar conflitos e disputas entre índios e não índios.
O parecer assinado por Temer determina que todos os órgãos da administração pública que lidam com a questão indígena devem passar a seguir o entendimento do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que definiu a demarcação de Raposa Serra do Sol, em Roraima. Nesse julgamento, os ministros criaram 19 condicionantes para permitir a demarcação da área, como por exemplo vetar atividade de garimpo ou permitir o acesso das Forças Armadas ao local. O ponto mais polêmico, entretanto, não é sequer uma das 19 condições. É o conceito de marco temporal. Em seu parecer, a AGU assimilou a tese de que só poderão ser demarcadas terras indígenas em que os índios estavam presentes na data de promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988.
O segundo efeito é paralisar processos de demarcação de terras que até hoje se arrastam no governo ou na Justiça. Um exemplo de caso que pode ser prejudicado é o dos índios guaranis que vivem na Terra Índigena Morro do Cavalo, em Santa Catarina. O governo do estado entrou no STF pedindo a extinção da demarcação, alegando que eles não ocupavam a terra em 1988. Segundo Juliana, essa informação não é verdadeira – eles estavam no local. Mas só a alegação já seria o suficiente para rever todo o processo. Os índios caiabis vivem uma situação semelhante, com suas terras sendo questionadas pelo estado do Mato Grosso. Isso sem falar em povos indígenas que foram expulsos de suas terras por fazendeiros ou até mesmo pelas Forças Armadas, durante o regime militar, e que tentam recuperar o território. “Na verdade, a medida acaba sendo mais um subterfúgio para o governo procrastinar a demarcação das terras”, diz.
A paralisação dos processos de demarcação é uma demanda antiga da bancada. Em 2012, por exemplo, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) pediu ao Supremo para vincular a decisão de Raposa Serra do Sol a todas as terras indígenas, o que teria um efeito similar ao do parecer da AGU. O STF negou.
Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o parecer assinado nesta quarta-feira foi discutido por parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), pela Casa Civil e pela AGU. O deputado Luis Carlos Heize (PP-RS), um dos nomes mais atuantes da bancada ruralista, chegou a prometer a aprovação da medida dias antes de a AGU fazer o anúncio oficial.

A indústria das drogas na fronteira Brasil-Paraguai transforma índios em viciados, escravos e até em traficantes filiados a uma facção criminosa




O indígena C. assistia a um jogo da Copa do Mundo quando apareceu uma oferta de trabalho tão imprevisível quanto a partida, na qual iranianos apertavam argentinos naquela tarde de sábado de 2014. O "homem branco" que bateu a sua porta falava guarani – língua comum a índios e paraguaios – e disse que lhe pagaria R$ 40 por dia pelo plantio de eucalipto no Paraguai, cuja fronteira fica a 40 quilômetros dali, a aldeia Limão Verde, em Mato Grosso do Sul.

Ele partiria imediatamente, era pegar ou largar. A área da Limão Verde é de 660 hectares para 1.600 guaranis-caiovás, o que dá o equivalente a apenas meio campo de futebol para cada um plantar e criar gado. Como C., a maioria sobrevivia do trabalho fora da terra indígena, mas a mecanização do corte da cana pelas usinas deixou ao menos 200 desempregados.

Aos 40 anos, com quatro filhos para sustentar, ele não pensou duas vezes. Colocou algumas roupas na mochila, mal se despediu da família e subiu na carroceria do Saveiro branco, onde já estavam outros sete índios. O transporte ilegal na carroceria não encontrou polícia na rodovia que leva a Coronel Sapucaia. Chegando lá, bastou atravessar uma rua para entrar em Capitán Bado, cidade paraguaia que o juiz federal Odilon de Oliveira – expoente no combate ao narcotráfico – chama de a "capital mundial da maconha", tamanha a produção da droga.

O Saveiro parou e os índios pularam para um Toyota Hilux, que se embrenhou Paraguai adentro. Por volta de 1 hora da manhã, os índios desembarcaram no meio do mato. Percorreram 1 quilômetro e meio por uma trilha rasgada no milharal.

Pularam cerca, andaram mais um pouco, até que encontraram dois homens armados que vigiavam um grupo de índios brasileiros, a maioria adolescentes entre 12 e 14 anos. Não havia plantio algum de eucalipto. "Aqui é o serviço, a colheita de maconha", disse o patrão paraguaio.

Logo no primeiro dia, C. percebeu que a lida era trabalho escravo. A jornada começava às 5h30 e acabava às 21 horas. Cozinhavam o almoço numa mesma panela, que primeiro recebia feijão, depois arroz, macarrão e por fim banha de vaca – e nem sempre a gororoba indigesta era suficiente para todas as 120 pessoas, grande parte índios brasileiros dos municípios de Amambai, Coronel Sapucaia, Antônio João e Caarapó, na região de fronteira.

Como bandeirantes do século XVII, dez homens armados com rifles e pistolas vigiavam o cativeiro onde índios no século XXI trabalhavam sob o regime abolido (com enorme atraso) no século XIX. Os trabalhadores dormiam ao pé das árvores na falta de espaço no barracão armado no meio da mata. Durante o dia, era ali que C. e outros índios manipulavam as flores de maconha, esmigalhadas depois sobre uma mesa. O material triturado ia então para a prensa ganhar o formato de tabletes. Só numa noite, os índios carregaram uma caminhonete com 3.500 quilos.

C., seus companheiros de infortúnio e centenas de outros índios que passam por isso participam do processo que faz do Paraguai um dos cinco mais importantes fornecedores de maconha para o mercado internacional, de acordo com dados da ONU. A área onde C. esteve faz parte do território hoje dominado pelo PCC, o Primeiro Comando da Capital, a maior organização criminosa do Brasil, que avança no Paraguai desde que eliminou o traficante Jorge Rafaat Toumani, em 2016, como ÉPOCA mostrou na semana passada.

Lá são produzidas algumas das toneladas de maconha que a facção envia para o Brasil e outros países, num negócio que movimenta mais de R$ 240 milhões. Na cultura da planta que se transforma em um produto ilegal, o trabalho – por óbvio – não é legalizado, não segue regras. Os índios – até mesmo crianças – ficam à mercê de criminosos profissionais. Sem notícias após oito dias, as mulheres de C. e de seus colegas índios procuraram o capitão da aldeia, como é chamado o líder dos guaranis-caiovás.

Nelson Castelão tinha experiência em detectar malvadezas contra seu povo. Ligou para o número de celular que o contratante deixara de contato. O homem disse em guarani que estava tudo bem, que em breve enviaria para as mulheres o adiantamento semanal dos maridos. Mais alguns dias sem notícias, e Castelão comunicou o desaparecimento à Funai, Fundação Nacional do Índio, que alertou a Polícia Federal.

Já circulavam informações sobre o aliciamento de índios nas aldeias Amambai, próxima à Limão Verde, e Taquaperi, em Coronel Sapucaia, a 40 quilômetros dali, para trabalhar na colheita de maconha. A Polícia Federal conseguiu contatar um índio que fugira do cativeiro. Ele contou que os trabalhadores eram forçados a fumar maconha, além de trabalhar na colheita, e deu indicações de onde ficava a fazenda.

A partir das informações da PF, a polícia paraguaia fez uma operação em Capitán Bado e resgatou oito índios da aldeia Amambai. Mas nem sinal de C. e seus companheiros da Limão Verde. Poucos dias depois, Castelão recebeu uma ligação. "Você aguarde, espere que nós vamos aparecer aí na sua casa, viu?", disse um homem. "Mandou polícia atrás de nós, né?" O aliciador registrara o número do capitão no celular.

A polícia paraguaia chegou por volta das 4 horas da manhã ao acampamento onde C. e os outros guaraniscaiovás estavam havia 15 dias. Assustados com o tiroteio, eles se esconderam na mata, de onde avistavam a fumaça negra que exalava da plantação incendiada pelos policiais. Por volta das 10 horas, criaram coragem para voltar ao acampamento. C. encontrou suas roupas queimadas.

Os seguranças armados transferiram os índios para outra área de plantio. "Obrigaram a gente a correr igual cavalo por cada brejo, que nossa! A água ficava por cima da cintura. Perdemos roupas e sapatos no caminho", diz C., que chegou descalço à nova lavoura. Um dos homens lhe deu uma pistola para vigiar o grupo, mas sua intenção era fugir assim que clareasse. Chamou os outros índios da Limão Verde para acompanhá-lo.

Mais velho, João Ferreira disse que não conseguiria segui-los e ficou no cativeiro. Os fugitivos chegaram à estrada no meio da tarde. Um camponês arrumou chinelos para C. Mais adiante, um guarda do cativeiro se aproximou de moto e pediu a pistola de volta. C. sacou a arma da cintura, retirou as balas e a devolveu. Na tarde seguinte, quando chegaram à sede da fazenda onde havia plantação de maconha, passava o jogo do Brasil com a Alemanha pela Copa, o inesquecível 7 a 1.

Reservas indígenas na fronteira do Brasil com o Paraguai se tornaram territórios livres para a atuação de traficantes

Por cinco dias, os índios ficaram em um quartinho e sem acesso a banheiro. Cansados de esperar por transporte de volta, eles caminharam dois dias enfrentando chuva e fome. Já próximos da fronteira, o motorista de uma caminhonete acenou para que subissem.

Foi assim, novamente de carona em uma carroceria de caminhonete, que voltaram a Coronel Sapucaia, após 24 dias no Paraguai. Contaram a policiais federais sobre o trabalho na lavoura. C. foi festejado pela família, que o julgava morto. João Ferreira, que ficou para trás, ficou 60 dias na plantação até "o patrão" deixá-lo na linha de fronteira.

Cobrou que voltasse na próxima safra. Ferreira mentiu que regressaria. Ganhou apenas R$ 1.000. Três anos depois, o capitão Nelson Castelão ainda teme que os traficantes apareçam para se vingar. Afinal, eles estão sempre por ali.




Terra indígena do PCC

Um investigador conhecedor do submundo da região afirma que "a área indígena é território livre" para o PCC hoje. Pobres, desempregados e sem terra para plantar, os indígenas da região são mão de obra fácil – e abundante e promissora – para incrementar os negócios criminosos. Presentes dos dois lados da fronteira, índios das etnias guaranicaiová participam de todos os ciclos da droga na área onde o crime organizado brasileiro se expande. Índios são trabalhadores escravos, são consumidores, são traficantes, são presidiários.

Alguns deles, para surpresa de policiais, já estão até formalmente filiados à facção criminosa, como os bandidos das cidades. A tatuagem de caveira no estilo hip-hop no braço esquerdo combinaria melhor com alguém maior que Estéfano Ortiz Benitez, um guarani-caiová de apenas 1,58 metro de altura e cerca de 60 quilos. Indinho, como é chamado – por motivos óbvios –, tem pelo menos dez anos de militância na bandidagem, sempre no tráfico de drogas.

Em 2011, ele se "batizou" no PCC, com o aval de três padrinhos, ganhou o número 8.875 e passou a exercer a função de "disciplina", o encarregado de julgar integrantes que cometem pequenos desvios de conduta. Passou depois a membro do jet, o conselho que cuida do pavilhão de um presídio, analisa e julga informações repassadas pelo "disciplina".

Indinho foi preso pela primeira vez em 2006 e de novo em 2010, quando foi condenado a 12 anos por tráfico. Mesmo preso, começou a mexer com cocaína, chamada de "100%" na linguagem da facção, uma droga mais rentável que a maconha. Indinho também organizava o cadastro de membros da organização para a festa de Natal e participava das rifas, que visam arrecadar dinheiro para o PCC com o sorteio de carros e motos entre presidiários de todo o Brasil.

Contribuiu com R$ 35, em dezembro de 2015, na disputa por cinco motos, mas ninguém de Dourados ganhou. Os prêmios saíram para cadeias no Paraná, Mato Grosso do Sul (cidade de Três Lagoas), Minas Gerais e "Bolívia", segundo anotações em um caderno da facção. No final do ano passado, Indinho passou ao regime semiaberto para trabalhar com serviços gerais numa empresa de engenharia.

Fugiu três dias depois. A explosão de criminalidade nas aldeias fez surgir uma expressiva massa carcerária de índios condenados pela Justiça – eles podem ser presos como qualquer cidadão, desde que compreendam a ilegalidade de seus atos. Com as mãos para trás e o rosto virado para a parede na penitenciária de Dourados, F., de 25 anos, conta que fez a triste transição de alguns de seus conterrâneos.

Em 2012, num final de tarde, a polícia descobriu por acaso a "boca" na casa onde ele, um índio da etnia terena, morava na aldeia Jaguapiru e vendia drogas. Detido, condenado a cinco anos por tráfico, F. continuou em liberdade. Em 2014, policiais o prenderam de novo, desta vez dirigindo um Astra sem habilitação e com 14 gramas de pasta-base de cocaína. Recebeu pena de seis anos de prisão. Continuou mais algum tempo em liberdade até a polícia encontrar quase 70 gramas de pasta-base de cocaína em sua casa. Aí não houve jeito.

Há um ano F. está preso. Lembra que começou a fumar maconha aos 12 anos e aos 20 viciou-se em crack, consumido livremente numa "balada" na saída da aldeia. "Vendi minha casa por R$ 8 mil e fui morar de aluguel. A bem dizer, eu fumei tudo, fumei quase uma casa", diz.

A pedra de crack custa R$ 10 e a caixa com 10 gramas sai por R$ 150 na aldeia, segundo F. A única visita que ele recebe é da mãe, aos domingos. Presa duas vezes com ele, mas sem condenação, sua mulher o abandonou e casou-se de novo. F. nunca mais viu os filhos de 5, 3 e 2 anos.
Crianças indígenas desapareceram, aliciadas para trabalhar no cultivo de maconha e no tráfico de drogas

Já são tantos os índios presos que o governo de Mato Grosso do Sul criou uma ala só para abrigá-los na penitenciária de Dourados, a principal cidade daquela parte da fronteira. Em 2011, a ala abrigava 55 índios. Em maio passado eram 120 – encarcerados por homicídio (40 presos), estupro (38), roubo (22), tráfico (14), lesão corporal (4), associação criminosa (1) e furto (1).

A ala tem um líder que leva reivindicações para a direção da cadeia, pede assistência à Funai, como kits de higiene, e evita brigas. A., de 41 anos, um sujeito tímido, de falar baixo e gestos contidos, está condenado a 43 anos de prisão por quatro tentativas de homicídio e um assassinato a tiros, durante brigas na aldeia Bororó. "Sempre falo para os que saem para não voltar mais para cá", diz ele, que cursa no presídio o 3o ano do ensino médio. "Hoje quem mata na aldeia são guris de 13 e 14 anos.

Matam até para roubar uma bicicleta, um tênis bom, porque não têm de onde tirar o que precisam." A. nunca quis virar liderança na aldeia, mas dentro do presídio assumiu esse papel. As dez celas dos índios ficam num setor que abriga detentos menos perigosos, idosos, homossexuais e internos que trabalham na cadeia.

O pátio do pavilhão se resume a uma quadra de futebol onde os presos convivem bem. Recentemente, três índios preferiram migrar dessa parte mais calma para a ala destinada aos detentos batizados no PCC, temidos pelos demais. Os presidiários da facção agem de forma diferente e são tratados com mais cuidado pelos carcereiros nos procedimentos rotineiros.

Quando estão no pátio, os presos comuns entram nas celas assim que soa um sinal do final do horário do banho de sol; em seguida, os carcereiros entram no pátio e trancam as portas. A turma do PCC permanece acintosamente fora das celas mesmo ao ouvir o toque de recolher; só se mexe para entrar depois de ouvir um segundo toque de recolher.

Suas celas têm uma particularidade: um sistema de tranca acionado por fora, no qual uma longa barra de ferro trava as portas. Só depois disso carcereiros entram no pátio e passam um cadeado em cada porta. De cinco anos para cá, cresceu o consumo de drogas entre os guaranis-caiovás, diz a pesquisadora Rosely Pacheco, que há 15 anos estuda os conflitos nas aldeias. "Os guaranis-caiovás são pacíficos, mas há o efeito da droga", diz Rosely.

Há mais índios presos por tráfico e viciados, na mais recente desventura desses povos. Ao longo da história, o embate com fazendeiros dizimou aldeias inteiras, como no ciclo da erva-mate do século XIX que confinou as tribos em pequenas ilhas no meio do latifúndio. Surgiram as reservas indígenas que juntaram à força etnias e costumes diferentes.

Muito antes das drogas, comerciantes passaram a vender cachaça aos índios, o que disparou casos de alcoolismo. Na década de 1990, ao menos 270 índios cometeram suicídio, entre eles crianças. Entre 2005 e 2007, a desnutrição matou pelo menos 49 crianças em um estado que é grande produtor de alimentos.

Os guaranis-caiovás são cerca de 46 mil a viver em aldeias demarcadas de apenas 60.000 hectares no sul de Mato Grosso do Sul, boa parte em áreas na fronteira com o Paraguai. Como mostra o caso de C., faltam espaço e condições para plantar e sobreviver. As aldeias Jaguapiru e Bororó, vizinhas de Dourados, são áreas superpovoadas onde 12 mil habitantes dividem 3.500 hectares.

Alguns poucos índios, porém, detêm a posse de grandes áreas. Demarcada em 1917, a reserva mais parece uma favela cercada pelos bairros que cresceram em volta. Sempre foi uma área problemática pelas chagas históricas de miséria, alcoolismo, suicídio e mistura de etnias. O tráfico de drogas se encarregou de piorar tudo com a disseminação do crime e do vício entre os indígenas.

As crianças que somem

A névoa se desmancha no céu azul da manhã de domingo, 7 de maio. Alguns índios caminham às margens do asfalto da rodovia que corta a aldeia Taquaperi, em Coronel Sapucaia. As duas meninas de cabelos aloirados pelo sol, o homem a cavalo, a mulher a pé atrás dele e o índio vestido de branco estranham forasteiros.

O bucolismo da cena dura só até surgir a lembrança que a rodovia é rota do tráfico de drogas. Traficantes invadem sem cerimônia a terra indígena, onde a polícia não entra, para despistar a lei. Como as outras aldeias guaranis, Taquaperi não tem as ocas cobertas de sapê como antigamente.

As casas de alvenaria escura, de madeira ou barracos de lona preta se espalharam entre o que sobrou da floresta e a praga do capinzal que cobre o Tekoha, como os índios chamam suas terras. Pequenas estradas tomadas por atoleiros e mato levam às moradias. Diante de uma dessas casas, vestido de calça jeans, sapato e camisa branca de manga longa, o capitão Oswaldo Rodrigues coloca o cocar de penas vermelhas e azuis para falar. "Já foram seis crianças mortas.

Não vou falar que são mortas, mas há dois anos, três anos, estão desaparecidas. Elas foram levadas ao Paraguai para trabalhar na plantação de maconha", diz. "No Brasil, criança não pode trabalhar, mas no Paraguai não tem essa lei. Por isso, levaram daqui." As crianças aliciadas estavam na faixa dos 12 anos e estudavam na escola local.

O capitão Rodrigues comunicou o desaparecimento a procuradores da República que estiveram na aldeia no início do ano. Os procuradores determinaram a abertura de um inquérito criminal e de outro cível para apurar o caso. Pediram uma lista de possíveis desaparecidos à Funai, que mantém um cadastro nas aldeias por meio de agentes de saúde.

As duas investigações correm em segredo de Justiça, mas a procuradoria adianta que o relato dos índios é bastante consistente. Segundo um delegado, a Polícia Federal ainda não chegou a nenhum dos aliciadores porque os índios têm dificuldades em descrever os suspeitos. Outro entrave é que muitos guaranis-caiovás não têm documentos: só em Taquaperi há 250 adultos e ao menos 39 crianças sem registro de nascimento.

Assim, é mais difícil encontrá-los. O capitão diz que os traficantes também recrutam adolescentes de 14 a 17 anos. Acredita que cerca de 300 indígenas de Taquaperi, a maioria nessa faixa etária, estejam nas lavouras paraguaias atualmente. "Eles não têm como realizar seus sonhos dentro da aldeia", diz. Querem roupas novas, um celular e, quando mais velhos, almejam uma moto para vencer a distância da aldeia até a cidade, localizada a alguns quilômetros de distância.

Os pais têm poucas condições financeiras para satisfazer os filhos. Professor de ensino fundamental da aldeia, Amaro de Souza Rocha diz que os próprios garotos indígenas ajudam no aliciamento dos colegas. Segundo a Polícia Federal, um adolescente de 14 anos, que passou a viver no Paraguai, recruta gente na aldeia para o plantio da maconha. "Os índios na fronteira têm de ser mais protegidos.

Estamos em perigo por causa dos traficantes armados", afirma o capitão Rodrigues. Ele quer do governo ao menos uma caminhonete para servir de "viatura" à equipe de segurança da aldeia, formada por índios armados com facões. Em 2013, o capitão Nelson Castelão flagrou um menino de 9 anos de idade com 12 quilos de maconha para distribuir na aldeia Limão Verde, principalmente a estudantes da escola local.

Flagrado novamente, agora com 500 gramas, acabou despachado para uma área mais distante da fronteira. As crianças de até 9 anos de idade representam quase 31% da população de guaranis-caiovás. Como característica mais marcante, os indiozinhos têm grandes olhos negros que expressam meiguice.

Eles surgem às dezenas do meio do capinzal seco, curiosos para ver os visitantes que chegam à aldeia. Estão sempre de roupas puídas, sujas de poeira. Enfrentam o alcoolismo dos pais, a desnutrição, toda sorte de privações na aridez da terra e agora a ameaça do tráfico de drogas. Só lhes resta acreditar que Nhanderu, o deus guarani, possa protegê-los.

O filme “Martírio”, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tatiana Almeida mostra a resistência ao genocídio dos índios Guarani Kaiowá.



Documentando o massacre sofrido, ao longo de séculos, pelos índios Guarani-Caiowáa, o veterano cineasta Vincent Carelli coloca na ordem do dia a construção da narrativa e a questão da visibilidade social.


Premiado no Festival de Brasília 2016, “Martírio” é o segundo documentário de uma trilogia assinada pelo veterano Carelli, cujo primeiro capítulo foi “Corumbiara” (2014) – sobre um massacre indígena em 1985, no sul de Rondônia –, que se completa com um filme a ser lançado, “Adeus capitão”. Iniciado em 1986, esse futuro filme gira em torno das indenizações a tribos em função da instalação de grandes projetos, em Marabá, sul do Pará.


Os temas dos três filmes são distintos, mas têm em comum a intenção de resgatar a história indígena, insistentemente escondida, adulterada, vilipendiada em séculos da suposta civilização. Nada mais eloquente desse processo do que “Martírio”, em suas 2h40 de duração enumerando diversos episódios da saga de resistência dos Guarani-Caiwoáa.


Recorrendo a materiais filmados por ele mesmo desde 25 anos atrás e também a preciosos materiais de arquivo, Carelli – com a colaboração de Ernesto de Carvalho e Tita – situa muito bem a expropriação das terras desse povo, mencionando a Guerra do Paraguai, o ciclo do plantio do mate, as intervenções do Marechal Rondon e de Getúlio Vargas, chegando até o momento atual. Um momento de impasse, em que os índios, cansados da eterna indefinição da demarcação, empenham-se de maneira não raro heroica por retomadas pontuais de seu território, independentemente da violência e das mortes sofridas.


Um dos aspectos mais contundentes de “Martírio” está nas imagens de políticos – como uma comissão do Senado que tratou da discussão sobre a PEC 215, que traria para o Congresso a palavra final sobre demarcações de terras indígenas -, que demonstram à perfeição a gravidade desse conflito. Ou seja, o contraste entre as reivindicações dos índios diante de latifundiários da chamada “bancada do boi”, avessos a qualquer concessão aos indígenas e no mínimo coniventes com a violência que leva ao seu extermínio.



(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)


* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

DOCUMENTÁRIO SOBRE ÍNDIOS GUARANI KAIOWÁ VENCE O 19º FICA



Concorrendo entre 25 obras nacionais e internacionais pelo prêmio principal do 19º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), o documentário “Martírio” foi aclamado como o grande vencedor da mostra na manhã deste domingo (25) e levou o grande prêmio de R$ 70 mil, além do prêmio de melhor longa-metragem. O filme conta a história da ocupação das terras dos índios Guarani Kaiowá, violenta e recorrentemente invadidas por fazendeiros da região, resultando na morte de dezenas de índios desde a década de 1980.

O segundo maior prêmio do dia, o troféu Saneago de Cinema Ambiental, no valor de R$ 30 mil, foi para o filme “Ilha”, de Daniel de la Calle, que trata da especulação imobiliária no território quase isolado de Boipeba, na Bahia.

Importante janela de premiação e reconhecimento da produção que é realizada em Goiás, a mostra da seccional da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD) distribuiu R$ 120 mil, em 13 prêmios para produções goianas. Ao todo, 101 filmes foram inscritos, dos quais 20 foram selecionados para a mostra. Dentre os vencedores, o melhor filme de ficção foi “Algo do que Fica”, dirigido por Benedito Ferreira; melhor ator Oldom Bonfim (“Algo do que Fica”); melhor atriz Helen Moreira, (“Procura-se Marina”); e melhor direção para Iolanda Margarida (“Procura-se Marina”).

Apenas na mostra competitiva do 19º FICA, 363 obras foram inscritas, das quais 25, de onze nacionalidades diferentes, foram selecionadas para o festival. Foram mais de 100 horas de filmes exibidos nas mostras principal e paralelas, o que atraiu público de cerca de 3,4 mil pessoas.

Com realidade virtual, visitante pode conhecer e sentir aldeia indígena do Pará


Cápsulas simulando a visita a uma aldeia do povo Munduruku, no Pará, com realidade virtual e estímulos táteis, auditivos e olfativos compõem a mostra “Experiência Munduruku”, que será realizada pelo Greenpeace, a partir desta sexta-feira (2), no Centro Cultural Correios São Paulo (CCCSP).
Em uma jornada pelo coração da Amazônia, será possível sentir a floresta e também aprender sobre a vida dos povos que vivem nela. Guiado pela voz do cacique Juarez Saw Munduruku, o visitante irá percorrer as águas do rio Tapajós, no Pará, e conhecer o modo de vida do povo Munduruku, podendo compreender sua relação com as matas e os rios.
A criação da exposição foi liderada pela britânica Grace Boyle, responsável pela construção do projeto Feelies – que busca gerar empatia a causas por meio da imersão em Realidade Virtual. O trabalho foi desenvolvido por Charles Michel, residente no Crossmodal Research Laboratory, da Universidade de Oxford, principal centro de ciência sensorial no mundo.
“Experiência Munduruku” é gratuita, dura cerca de 15 minutos e ficará aberta ao público em curta temporada, até o dia 25 de junho. O Centro Cultural Correios São Paulo está situado na Avenida São João, s/nº, Vale do Anhangabaú. As visitas podem ser agendadas de terça a domingo, das 11h às 17h. A entrada é franca e os agendamentos podem ser feitos pelo endereço: https://www.sympla.com.br/greenpeacebrasil.

A cura espiritual guarani

 
O pajé Laurindo Tupã tem 67 anos e vive na Aldeia Brilho do Sol, em São Bernardo do Campo (23 km de São Paulo), uma área a que se chega apenas por balsa, cruzando as águas da colossal represa Billings, um dos mais importantes reservatórios hídricos da região metropolitana de São Paulo. Há 42 anos, devota-se a curas espirituais em aldeias guarani e é o mais requisitado pajé do Brasil, qualificação que, embora honrosa, impõe-lhe a missão de confrontar um severo déficit de pajés guarani. Missão dura: o pajé percorre nada menos que o país inteiro realizando sessões de cura espiritual e, assim, preservando a cultura de seu povo.
 
No dia 27 de maio, Laurindo desembarcou em Aracruz, norte do Estado. Até a última quarta-feira (31), promoveu 20 sessões de cura espiritual nas aldeias Piraquê-Açu e Boa Esperança, em que tratou 200 pessoas, a maioria jovens e mulheres. Não encerrava o dia sem antes discursar em defesa da vida indígena; no Espírito Santo, celebrou a memória de Tatantin Rua Retée, a xamã que quatro décadas atrás achou ter encontrado a Terra Sem Males em Santa Cruz, Aracruz, mas reconheceu, tempos depois, estar enganada.
 
A tradição guarani oferece tratamento espiritual para males físicos. Explicando tosca e rasteiramente: o pajé trabalha as energias corporais do enfermo com o auxílio de um cachimbo de madeira com ervas medicinais, que traga profundamente para em seguida devolver uma fumaça grossa com a qual envolve a mulher ou homem de torso nu sentado a sua frente.  A fumaça é presença inexorável: é o que afugenta os maus espíritos. Depois, o pajé procede um apalpamento dos pontos energéticos do corpo. 
 
Esse ritual intenso e poderoso é realizado no Opu (templo religioso), uma casinha penumbrosa com telhado duas águas forrado com folhas de palmeira, chão de terra batida e paredes de estuque. O acesso se dá apenas por uma porta; uma outra, direcionada para o nascer do sol, permanece fechada junto com a janela ao lado para evitar a entrada de maus espíritos. 
 
A um canto, mulheres cuidam das cepas de madeira que queimam lentamente. Trata-se de um dos principais elementos da sessão: produzem o fogo que alimenta as ervas do cachimbo do pajé. Noutro canto, um grupo em pé executa cânticos guarani com rabeca, violão, tambores, maracás e bastões de bambu batidos contra o chão por mulheres, que, dançando, marcam o compasso curto da música. 
 
Espalhados por todo o espaço, homens e mulheres em busca de cura esperam a vez sentados, imersos nesse cenário sensorial de fumaça, calor e música.
 
Uma banqueta repousada de frente para a porta fechada do Opu é o centro gravitacional do local. Tronco nu, uma velha guarani dirige-se tropegamente em direção à banqueta. Mesmo à pouca luz, é possível notar o inchaço severo que domina-lhe um terço da canela, logo abaixo do joelho. Com dificuldade, a velha guarani acomoda-se nele, voltada para a porta cerrada. Transmite calma. 
 
O pajé se aproxima, detém-se à sua frente por alguns segundos e começa a rodea-la, tragando profundamente o cachimbo e lançando-lhe grossas e sucessivas baforadas sobre a cabeça. Dedica-se um bom tempo a esse ritual preparatório para o corpo receber as energias. Cachimbo na boca, tragando as ervas e liberando fumaça, cinge toda a fronte da velha índia numa nuvem suave que, no entanto, demora a dissipar-se.
 


Essa prática medicinal guarani inicia o procedimento preparatório para cura espiritual sempre pela cabeça, o centro sensorial e cognitivo humano, derramando fumaça sobre os sete orifícios, as sete portas da percepção humana. O pajé só empreende os toques corporais, a exploração dos pontos energéticos do corpo, após despejar robustos blocos de fumaça medicinal sobre a cabeça do enfermo. 
 
O produto da combustão das ervas do cachimbo conduz o espírito para a cura. É o primeiro campo de exploração. O segundo campo são os toques corporais nos pontos de energia, que irão, digamos, desatar os nós e franquear os canais do corpo para a cura espiritual. Um terceiro procedimento não guarda lógica: às vezes o pajé lança baforadas na porta fechada. É que, na condição de curador espiritual, ele identifica a presença de espíritos maus que querem impedir o processo de cura e ameaçam entrar pelo acesso voltado para o nascer do sol. 
 
O parâmetro, aqui, não é apenas o fisiológico, as manifestações mais imediatas de perturbações (dores ou doenças). Do biológico ao espiritual, o pajé desbrava toda a composição humana e busca restabelecer o equilíbrio por um ou outro motivo desestabilizado.
 
O pajé, no entanto, reconhece as limitações da cura espiritual, efeito de transformações específicas no modo de vida indígena. Este foi um dos temas do discurso com que encerrou o primeiro dia de sessões de cura. 
 
Laurindo tomou a própria experiência guarani como exemplo, lembrando que, hoje, praticamente não há aldeias que não sejam vizinhas de grandes fazendas ou de perímetros urbanos, uma experiência que, como se sabe, reconfigurou marcantemente a cultura indígena. Incluindo a produção de doenças.
 
O pajé reportou que, até pouco tempo atrás, curava os índios de doenças produzidas pela vida na floresta - uma picada de cobra, uma queda na mata, um arranhão. Perturbações típicas do habitat indígena. O contato com o homem branco contaminou a nosologia indígena e produziu enfermidades para as quais a cura espiritual guarani é incontornavelmente ineficaz. 
 
A solução, aqui, disse o pajé sem titubeios, é mandar o enfermo para o hospital - coisa que ele mesmo faz.
 
No Opu, o pajé e a índia estão imersos em fumaça, absortos naquele ritual de cura. A música preenche o ambiente; a marcação certeira dos bastões de bambu batidos contra o chão ressoa pelo ar. A rabeca e o violão conferem um contraponto melódico ao acompanhamento percussivo dos tambores, maracás e bambus. As mulheres continuam dançando e cantando.
 


Após envolver a cabeça morena da velha índia, o pajé inicia o tratamento corporal, pressionando pontos específicos do torno da mulher onde se concentram as energias corporais. Então, se agachou em frente à índia, esticou a perna inchada e procedeu o ato mais impressionante daquele primeiro dia ao aproximar o rosto, escancarar os dentes e abocanhar com vigor o membro enfermo. 
 
Preservou-se naquela posição por alguns minutos, a boca afixada na perna inchada, o pescoço imóvel. Notava-se, contudo, um pequeno movimento da garganta do pajé, como se ele operasse a drenagem do membro. 
 
Nenhum esgar desestabilizou a fronte serena da velha índia. Quando o pajé se reergueu, o inchaço cedera e, a perna, readquirido proporções aceitáveis. Em seguida, o pajé levou a mão à boca, um gesto mais impressionante, que se repetiu na maioria dos procedimentos. Com os dedos em forma de pinça, ele retira da língua o produto da cura: um minúsculo material arredondado na forma e avermelhado na cor. 
 
Não há diagnóstico prévio. O pajé vê a doença. Quando atinge o enfermo com a fumaça e os toques corporais, a sensibilidade indígena aflora e se manifesta na visão da moléstia que acomete a pessoa sentada na banqueta. 
 
Este é um ponto interessante. Como ele trata de qualquer pessoa que entre no Opu, o que inclui o homem branco, as respostas que obtém, as formas pelas quais sua sensibilidade terapêutica se manifesta, são divergentes. E a linha fronteiriça é costumeiramente cultural: quando trata o índio, as respostas são imediatas; quando o enfermo é o não-índio, não raro demoram, exigindo mais sessões.
 
A postura impassível da índia ante uma arcada dentária cravada numa fonte de dor e sofrimento físico fornece o elemento vital que separa índios e não-índios no processo de cura espiritual: a entrega, a confiante submissão física e psicológica aos cuidados de uma tradição milenar. Os índios abandonam-se ao pajé; os não-índios, digamos, capitulam. 
 
É que o índio em estado primitivo buscam a cura espiritual, sabem que o tratamento não se restringe apenas ao ataque a manifestações físicas. A xamã Tatantin Rua Retée pereceu aos 104 anos sem nunca ter ingerido um remédio farmacêutico. O índios se entrega porque sabe que as duas partes precisam estar integradas, um alinhamento, contudo, não observado com o não-índio.
 
Geralmente o pajé não obtém êxito na cura espiritual do não-índio numa primeira sessão. O processo de entrega do não-índio obedece a outro ritmo, mais lento, por isso que, antes, ele capitula ao pajé. Se a construção da confiança não é imediata, o pajé não obtém a cura na primeira sessão, como geralmente ocorre. Daí a recomendação de mais sessões.  
 
Além de alertar para os desafios da vida indígena, o discurso de encerramento do daquele primeiro dia de curas espirituais emocionou ao exaltar a memória de Tatantin Rua Retée, a quem chamou de figura magistral, destacando, sobretudo, que, mesmo não tendo encontrado a Terra Sem Males, a xamã tornou-se um espírito presente e inseparável da vida dos índios. O único cachimbo de argila no Opu pertencera à xamã e reforçou a presença dela.
 
Na virada dos anos 60 para os 70, Tatantin conduziu seu grupo, oriundo da República Guarani, constituída por jesuítas numa vasta área que abrangia territórios do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, desde o Rio Grande do Sul pelo litoral brasileiro em busca da Terra Sem Males. Um dos traços mais fortes da cultura guarani é a crença de que eles estão de passagem neste planeta, a caminho desse local idílico e abençoado, à procura do qual se puseram após a destruição da república por Espanha e Portugal. 
 
Suspeitou tê-la encontrado quando o grupo atravessava a foz do Rio Piraquê-Açu, em Santa Cruz. Seis quilômetros depois encontraram os Tupinikim e lá se estabeleceram; a xamã considerou que havia enfim encontrado à Terra Sem Males. Anos mais tarde, os eucaliptos e os interesses econômicos da então Aracruz Celulose (hoje Fíbria) os expulsaram. Foram para Guaparari, mas voltaram para a Aracruz e lá estão até hoje.
 
Tatantin viveu por 104 anos e morreu no Espírito Santo; foi enterrada no cemitério de Santa Cruz. Pouco antes de sua morte, ela, por situações que identificava como uma xamã, como a morte prematura de algumas crianças, e outros episódios que ocorreram, a levaram à conclusão de que tinha errado ao apontar a região como o local da Terra Sem Males.
 


Ao exaltar a vida e trajetória da xamã, o discurso de encerramento do pajé pode ser interpretado como um chamado enérgico em defesa da vida indígena. Ali o político e o religioso se entremearam ao rememorar o passado guarani, seus xamãs e ancestrais.
 
Uma celebração musical encerrou o primeiro dia de cura espiritual do pajé Laurindo Tupã em Aracruz. Ele empunhou um violão, voltou-se para a porta fechada do Opu e iniciou uma música animada, enquanto homens e mulheres o reverenciavam com a cabeça. Era especial a satisfação dos jovens, presença significativa no local: sinal auspicioso de que as tradições indígenas terão continuidade.
 
Mas nem tudo são alegrias. O pajé Laurindo Tupã identificou que as aldeias manifestam muitas doenças, razão pela qual disse que deve voltar para novas sessões de cura espiritual em agosto.

Vídeo mostra momento em que caminhão tomba próximo à barragem de José Boiteux

Motorista tentou atravessar uma área alagada e chegou a se jogar do veículo


Enquanto índios e autoridades negociavam o acesso de técnicos da Defesa Civil à barragem de José Boiteux, na última sexta-feira, um acidente a poucos metros do local chamou a atenção. Em um ponto que facilmente se alaga quando há chuva mais intensa, um caminhoneiro tentou passar com seu veículo, porém sem sucesso. Antes que o caminhão tombasse, o motorista pula para fora. 

O acidente foi todo filmado por um colega de trabalho do condutor.

Segundo o cacique presidente das aldeias, Brasílio Pripra, esse caminho é essencial para a comunidade indígena, principalmente por conta da passagem do ônibus escolar. É justamente por fatos como este que os índios reivindicam uma ponte no local, para evitar empecilhos sempre que há chuva mais forte na região da barragem.

– E se fosse o ônibus com as nossas crianças em vez do caminhão? – questiona o cacique.

VEJA O VÍDEO:

Índios ensinam como salvar língua quase extinta

A forma de produção do material didático e a aplicação dele em sala de aula inspira outras iniciativas como a dos Apiakás, que querem evitar a extinção de sua língua materna. (Foto: Luciano Justiniano)A forma de produção do material didático e a aplicação dele em sala de aula inspira outras iniciativas como a dos Apiakás, que querem evitar a extinção de sua língua materna. (Foto: Luciano Justiniano)
“Meu povo tem uma história muito triste, em relação à língua. No passado meu povo foi muito massacrado e proibido de falar a língua. Da nossa língua, hoje, nós só temos dois falantes”. O desabafo é do professor Raynney Datxe, indígena da etnia Apiaká da região amazônica, no norte de Mato Grosso.
O povo dele não é o único a sofrer o massacre cultural. Na semana que passou, o professor veio junto com uma comitiva de educadores Apiaká a Miranda para aprender como preservar o pouco que restou da língua.
No Estado, a comitiva acompanhou o trabalho do Ipedi (Instituto de Pesquisa da Diversidade Intercultural) no resgate da língua e da cultura dos índios terena das oito aldeias de Miranda. Projeto daqui que já recebeu diversos prêmios nacionais por promover a preservação da língua terena, já em extinção.
Visitantes receberam exemplares do livro Kalivono e conheceram as práticas pedagógicas aplicadas em sala de aula.  (Foto: Luciano Justiniano)Visitantes receberam exemplares do livro Kalivono e conheceram as práticas pedagógicas aplicadas em sala de aula. (Foto: Luciano Justiniano)
A tecnologia criada pelo Instituto consiste na na produção de material didático para educação infantil e alfabetização, tanto em português quanto em terena e pautados na cultura local.
O mesmo pode ser reaplicado para ajudar a salvar outras línguas indígenas em extinção no Brasil, como a língua dos Apiakás. 
“Nosso objetivo na aldeia Babaçú, no município de Miranda, foi de conhecer como é que foi desenvolvido este projeto, porque no futuro nós queremos também fazer o mesmo”, afirma o professor Raynney Datxe.

Associação de Mulheres Indígenas do Jardim Noroeste Estrela do Amanhã, que desenvolve trabalhos em busca de resgatar a cultura terena, com objetivo de mudar a realidade das famílias.

Dalva de Almeida Cáceres tem 40 anos, nasceu e cresceu na aldeia Ypegue, em Aquidauana. De origem terena, chegou em Campo Grande há 8 anos em busca de uma vida mais digna para sua família, mas nada é fácil para quem é indígena em Mato Grosso do Sul.
Dalva é o retrato da mulher brasileira, que apesar de fazer história onde vive, narra o que resta para elas quando o assunto é trabalho e igualdade social. (Foto: Alcides Neto)Dalva é o retrato da mulher brasileira, que apesar de fazer história onde vive, narra o que resta para elas quando o assunto é trabalho e igualdade social. (Foto: Alcides Neto)
“Ninguém aqui consegue emprego em shopping”, diz a mulher que há 8 anos criou uma associação em um barraco debaixo de uma árvore na comunidade Estrela do Amanhã, no bairro Jardim Noroeste.
Dalva é o retrato da mulher brasileira, que apesar de fazer história onde vive, narra o que resta para elas quando o assunto é trabalho e igualdade social. Nem o Ensino Médio completo serviu de chance para conseguir emprego em lugares que não sejam a cozinha ou a faxina.
E nem é preciso tirar muitas palavras de Dalva para entender a dura relação com o preconceito, onde a cor e a etnia têm peso na hora de conseguir um emprego. “Desde que cheguei aqui só consegui na faxina, hoje estou na cozinha, mas é assim com todas as outras mulheres indígenas”, afirma.
A mesma dificuldade é enfrentada por outras 65 famílias da etnia terena que vivem sob barracos desde que chegaram na região em busca de moradia.
Por isso, Dalva lutou para erguer o barraco, sede da Associação de Mulheres Indígenas do Jardim Noroeste Estrela do Amanhã, que desenvolve trabalhos em busca de resgatar a cultura terena, com objetivo de mudar a realidade das famílias.
Sem nenhuma ajuda do poder público, são as mulheres que ensinam o artesanato com argila e também a produção de pães. Mas sem recurso, falta material e forno para continuar o trabalho. “Não conseguimos encontrar argila por aqui, temos que buscar na aldeia, mas ninguém tem locomoção. A gente instituiu o curso justamente para que as mulheres sobrevivam do artesanato”, explica Dalva.
Entre as mulheres que vivem no bairro, Dalva tem um jeito tímido, mas é bem articulada. Na cidade conseguiu concluir a escola, mas lamenta ter abandonado a universidade. Apesar da distância do diploma, ela dá graças a Deus pelos filhos estarem trilhando um caminho diferente. Um deles tem bolsa em uma faculdade particular de Campo Grande.
Associação precisa de recursos para continuar os trabalhos. (Foto: Alcides Neto)Associação precisa de recursos para continuar os trabalhos. (Foto: Alcides Neto)
“Fiz o Ensino Médio completo, comecei a cursar História, mas ficava difícil trabalhar na faxina o dia todo, cuidar do nosso barraco e ir pra faculdade que fica do outro lado da cidade, toda noite. Por isso, eu luto pelos meus filhos”, desabafa.
Ser índio em Campo Grande é um desafio para quem tenta não perder a própria identidade, explica Dalva. “Muitos índios que chegam sozinhos na cidade não conseguem nem se expressar. Quando chegamos aqui, as pessoas acham que a gente tem que deixar de ser índio. Mas a gente só quer uma vida melhor, e tenta manter a nossa cultura”, reforça.
Até o jeito de viver é motivo para olhares tortos, comenta. “A gente não usa maquiagem, não pinta o cabelo, isso não é da nossa cultura. Mas aqui na cidade muita gente tem que se habituar a vida do branco. Imagina se a gente vai ao supermercado com os mesmos trajes que usamos na aldeia”, diz.
Para fortalecer e unir a comunidade em busca melhorias, Dalva pensou na associação. O nome Estrelas do Amanhã surgiu pela maneira como tudo começou. Sem cobertura e energia elétrica, há 8 anos as mulheres se reuniam debaixo da árvore sob a luz das estrelas para discutirem soluções para a vida dão difícil. 
Agora, o sonho das mulheres indígenas é pela conquista de uma moradia digna, sempre insistindo para que a cultura não seja apagada. "Precisamos de apoio e recursos para continuar com os nossos projetos. Um deles é fortalecer a língua terena. A maioria dos indígenas, inclusive eu, não sabe mais falar a própria língua. E isso faz parte da gente", finaliza.



Créditos:campograndenews

'Z - A cidade perdida' mostra diálogo entre colonizadores britânicos e indígenas

Percy Fawcett é um explorador que defende os índios em 'Z - A cidade perdida'

Estamos no início do século 20 e os exploradores britânicos Percy Fawcett (Charlie Hunnam), Henry Costin (Robert Pattinson) e Jack Fawcett (Tom Holland) estão na Amazônia em busca de uma civilização evoluída que teria tido espaço por ali. Assim é Z – A cidade perdida, novo filme de James Gray e que traz Sienna Miller no elenco.
A trajetória do trio não é das mais fáceis. A comunidade científica não dá o menor crédito para as pesquisas deles. Os índios não acham nada legal ter as terras invadidas por exploradores brancos. E para piorar: o local onde estaria tal civilização simplesmente desaparece após algumas visitas.

O cinema americano está acostumado a retratar progressistas dispostos a dizimar os índios, caso seja preciso dentro das ambições deles. Mas em Z – A cidade perdida não é assim. Fawcett defende os nativos, busca um diálogo com eles e diz aos cientistas britânicos e americanos que os índios são os verdadeiros donos das terras amazônicas. Longe de ser um herói pró-indígenas (o que ele quer na verdade é ter aliados na procura pela cidade Z), Fawcett não medirá esforços para achar a própria Eldorado e provar para todos quem estava com a razão desde o início.


Projeto: Aldeia nas escolas promoveu um encontro a diferentes culturas

Por Márcio Call


A maioria das crianças que mora nas cidades só vê índios em duas situações: ou nos livros de história que contam a descoberta do Brasil ou, então, quando encontram com algum deles vendendo artesanato pelas ruas. E, mesmo assim, costumam ignorá-los, até por desconhecimento de que existem tribos que, a duras penas, continuam mantendo sua identidade e sua cultura. Por isso, a importância de projetos como o que foi desenvolvido pelo produtor cultural Márcio Call de Maricá-RJ, denominado de "Um pedacinho da Aldeia nas escolas"

Pela primeira vez as crianças _ e muitos pais e professores também _  puderam ver de perto e conhecer como é a cultura de uma das etnias indígenas que ainda povoam Rio de Janeiro. As escolas receberam a visita de índios Guarani vindos da aldeia Tekoa Ka'aguy Hovy Porã (Mata Verde Bonita) no município de São José do Imbassaí, Maricá-RJ. Entre eles, vieram algumas crianças indígenas, que por algumas horas puderam conviver com os alunos, todos muito curiosos com a novidade na escola. Uma mistura bonita de raças e costumes e de respeito às diferenças.

Os Guarani mostraram um pouco de sua cultura por meio das danças típicas, explicando para a comunidade escolar que elas são usadas nos rituais para pedir (ou celebrar) as boas safras e as boas pescarias, para homenagear os antepassados e até para espantar as doenças. Tradições antigas que são passadas de geração em geração. Nas escolas, os índios (inclusive os pequenos) da aldeia, dançaram para agradecer a hospitalidade e a oportunidade de mostrar um pouco de sua cultura milenar.

Os alunos tiveram a oportunidade também de conhecer o artesanato produzido pelos Guarani. Arco e flecha, tão presente no imaginário popular quando se fala em indígenas, foi o brinquedo preferido dos meninos, mas os instrumentos musicais como os chocalhos também fizeram sucesso. Cestarias e objetos de decoração em madeira, confeccionados principalmente pelas mulheres da aldeia, estavam à venda, pois ajudam a complementar a renda familiar. Todas as crianças queriam sentir-se um pouco indiazinhas também.  ''Momentos encantadores e inesquecíveis, que proporcionaram um novo olhar, além de ensinar o respeito, a troca, o carinho e a amizade''.  Vida longa ao projeto, que tem por objetivo conhecer e reconhecer a diversidade étnica, cultural e social brasileira. 


         



Produtor do projeto: 
Aldeia nas escolas 
por Márcio Call


Indígenas venezuelanos realizam ritual em abrigado de Manaus

A crise na Venezuela transformou a vida dos indígenas, na aldeia os Warao não tinham alimentação e nem água

Anibal começa os preparativos para o ritual de limpeza. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

A assessora técnica da Fundação Estadual do Índio (FEI), Yawara-t Marulanda, acompanha o caso dos Warao desde o início. Ela contou ao Portal Amazônia que o ritual de limpeza é realizado para a prosperidade do local. “O ritual representa o momento com os nossos ancestrais, onde os indígenas pedem saúde e agradecem aos objetivos alcançados. Geralmente, a cerimônia é realizada em um lugar aberta e com uma fogueira, mas eles fizeram questão de realizar as orações”, explicou Yawara-t que também é indígena e pertence a etnia Kokana.
Já o venezuelano Anibal Perez que realizou o ritual de limpeza nas instalações do Serviço de Acolhimento Institucional de Adultos e Famílias aproveitou a oportunidade para agradecer ao carinho dos manauras. “Não é fácil, nem para nós e muito menos para vocês, mas o nosso povo se sentiu acolhido em Manaus. Quando chegamos aqui não sabíamos para onde ir, então improvisamos uma moradia perto da rodoviária. As autoridades também se ofereceram para ajudar e conseguimos um teto confortável”, afirmou. 
A crise na Venezuela transformou a vida dos indígenas, na aldeia os Warao não tinham alimentação e nem água. “Para muitos, a única opção era fugir da Venezuela. Amamos o nosso país, mas sair de lá era questão de sobrevivência”, destacou Perez. De acordo com o indígena, as condições dos venezuelanos em Manaus nem se compara com a situação que vivemos lá. “Está muito ruim. Graças a Deus que nossas famílias conseguiram vir para o Amazonas”, disse.

Acompanhamento
Para a titular da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (Sejusc), Graça Prola, os venezuelanos poderão sair de uma área de risco. "Estamos acompanhando a situação dos indígenas desde dezembro de 2016, quando eles começaram a chegar em Manaus. Esse abrigo tem a capacidade para 300 pessoas, ou seja, ainda tem possibilidade de mais pessoas poderem ficar no prédio. O abrigo é uma atividade de caráter emergencial, porque os abrigos via de regra são pequenos, então a grande população estamos trabalhando nesses espaços maiores", afirmou. 
Além de moradia, os indígenas Warao receberão alimentação, atendimento de saúde e cursos do  Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam). "Estamos trabalhando junto com eles um cardápio para adequar os costumes deles, mas claro dentro de um contexto de segurança alimentar e nutricional. Vamos também trazer professores do Cetam para oferecer cursos de português aos indígenas, principalmente para aqueles que desejam conseguir um emprego. Desde o início, os Warao também recebem atendimento médico, principalmente as crianças", contou Graça. 
Plano
As medidas fazem parte do Plano Emergencial de Ajuda Humanitária aos venezuelanos que estão em Manaus fugindo da crise política e econômica da Venezuela, em especial indígenas da tribo Warao. O plano tem à frente os seguintes órgãos: Secretaria Estadual de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Secretaria Estadual de Assistência Social (Seas), Fundação Estadual do Índio (FEI), Fundo de Promoção Social (FPS), do Governo do Amazonas, Secretaria Municipal da Mulher Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh) e Secretaria Municipal de Saúde (Semsa).